Saúde mental e Educação: um diálogo possível?
12 de Julho de 2017
Saúde mental e Educação: um diálogo possível?

Talvez o leitor se pergunte: desde quando psiquiatra palpita nos assuntos de escola? Alguns até podem ter os batimentos cardíacos acelerados: o psiquiatra, aquele vilão, que medicaliza a infância, agora pisa nesse território? Que absurdo! Extremos, realidades e dramas à parte, não sei com muita precisão por que via me encontrei nessa encruzilhada.

Pois bem, é custoso encontrar a origem desse interesse. Fui educada num modelo do qual, sinceramente, questiono muitos aspectos hoje em dia. Cheguei à escola lendo, com letra cursiva exemplar, fazia operações matemáticas simples... Precoce? Que nada! Sob meu ponto de vista, hoje, penso que a escola poderia ter sido uma verdadeira chatice e um tédio sem fim.

Fui agraciada, no decorrer da minha jornada estudantil, com alguns valiosos mestres que transmitiram valores, despertaram curiosidade e crítica em mim, tiveram um olhar atento as minhas especificidades e souberam colocar-se ao meu lado no meu processo de desenvolvimento. Entretanto, nem tudo foi um conto de fadas. É claro. Havia os apelidos que me envergonhavam, as "panelinhas de pressão" quase impenetráveis, as dificuldades trazidas pela miopia...

E vamos dar um grande salto do ensino fundamental pro início da minha formação em Psiquiatria da Infância e da Adolescência. Este, aliás, parecia um bom e apaixonante plano, pra quem ficou em dúvida entre Psiquiatria e Pediatria ao final do curso médico, afinal.

Durante o período da residência médica, no contexto da relação médico-paciente-família, observei que a clínica precisava extrapolar esses protagonistas e os muros do consultório. Era fundamental ouvir, escutar e valorizar o relato do professor sobre a criança na escola. A partir daí, procurei conversar pessoalmente com eles, sobretudo com aqueles que lecionavam para os pacientes mais graves. E tive grandes e memoráveis encontros!

Encontrei professores e professoras com um "instinto materno" muito saudável, que foram capazes de se vincularem às crianças e despertarem o lúdico e a empatia nelas. Contudo, notei que, ao mesmo tempo, também estavam assustados e angustiados com a gravidade dos seus alunos - seja pela dimensão da dificuldade da aprendizagem, do comportamento, das emoções ou das mazelas sociais.

Foi a partir daí que um diálogo foi possível. Eu podia contribuir com alguns saberes da minha área de atuação - informações sobre o desenvolvimento normal na Infância, as dificuldades que o adoecimento impõe às crianças -, podia acolhê-los e ajudá-los a construir conjuntamente estratégias para lidar com as especificidades dos pequenos - desde que eu deixasse de lado o mediquês e me espelhasse nos bons mestres didáticos que tive como modelo ao longo da minha própria jornada. Os exemplos explicativos tinham que ser do cotidiano deles e não do meu quase automático glossário médico.

Para além disso, a maior beneficiada nessa jornada tem sido eu mesma. A troca de conhecimento com os professores é demasiadamente prazerosa e transformadora. Eles tem uma forma de lidar com as crianças totalmente peculiar, um contato intenso com elas por passar muito tempo juntos e, por conseguinte, um enorme conhecimento a respeito delas.

Passei então a sair do hospital e ir até as escolas cada vez mais. Lembro quando entrei pela primeira vez numa escola para discutir sobre um caso de uma criança. Os relatos das consultas ambulatoriais que obtinha dos familiares e observava pelos sintomas do paciente assumiram outra dimensão, quando me deparei com as dimensões do edifício: o alambrado enorme, as carteiras, o tamanho da sala de aula e tantos outros detalhes da estrutura física. Imaginava o que poderia interessá-lo e diverti-lo ali, qual seria o seu sofrimento naquele espaço. Tudo assumiu outro sentido, quando resolvi fazer desse deslocamento de espaço uma rotina.

Tive um encontro com a educação, posso dizer. Ou ela teria me encontrado na esquina? Só sei que foi de modo esperançoso, grato, otimista, mas sem perder o senso da realidade, da angústia, da impotência, do abandono e do desafio.

Descobri que os professores, quando se interessam genuinamente pela criança, além de detentores de informações muito preciosas para auxiliar a minha investigação diagnóstica e condução do caso, podem ser capazes de transmitir muito mais do que conhecimento acadêmico às crianças - amor pela vida, esperança, autoestima fortalecida, perdão, gratidão e empatia. Eles podem e precisam ser grandes parceiros e protagonistas na nossa clínica da infância, tanto quanto a família e outros da rede de proteção à Infância.

E, por fim - ou "por início"? -, cá estou, desbravando um universo, a partir de uma pesquisa de mestrado encantadora, desafiadora e angustiante, cuja função tem sido estabelecer as bases sólidas da minha decisão pessoal tomada ao longo do processo: o diálogo com a Educação, isto é, a consultoria escolar, essa sim será a tônica da minha clínica com as crianças.

Dra. Natália Baliani de Biagi
Psiquiatra 150.312 RQE 57.983


Artigos Relacionados

Inteligência Emocional Infantil
Inteligência Emocional Infantill
01 de Fevereiro de 2017
leia mais...
Saúde Emocional Infantil
Saúde Emocional Infantil
12 de Janeiro de 2017
leia mais...
Eles Já Nascem Sabendo?
Eles Já Nascem Sabendo?
12 de Janeiro de 2017
leia mais...