Vivendo o adoecer - As emoções que envolvem o câncer de mama
17 de Outubro de 2018
Vivendo o adoecer - As emoções que envolvem o câncer de mama

O que é ter saúde? O que é estar doente? Acreditasse que a enfermidade é algo distante de nós, que estamos como que blindados. Vivemos a nossa correria, nossa vida agitada, sem tempo para olhar a vida com a calma que ela merece. De repente, como que “surgisse do nada”, ela nos pega de surpresa, e nos vemos diante de um diagnóstico muitas vezes acompanhado de estigmas e preconceitos, como é o caso do câncer.

O câncer é uma doença geradora de grande temor. No que diz respeito ao câncer de mama, este vem acompanhado de tristeza, medo e insegurança. O impacto do diagnóstico traz muitas vezes, pensamentos e sentimentos desesperadores, como se fosse “tirado o chão”. Todas as certezas (que pensamos ter) deixam de existir neste momento. Vivencia-se o real sentimento de que o futuro é uma incógnita. As pessoas não estão preparadas para perder o simbolismo de seres humanos saudáveis, com seus diversos papéis sociais. A perda do controle sobre a vida, sobre a rotina e o medo da dependência são muito frequentes na vivência dessas mulheres. Descobrir-se com uma doença grave gera angústia, desesperança e até mesmo sentimentos de culpa, e a pessoa tenta entender os acontecimentos, para saber onde errou e o que levou ao acometimento. Surgem perguntas irrespondíveis e questionamentos como 'por que comigo?'.

O primeiro estágio pós diagnóstico, e todos os sentimentos que o acompanham, é a negação. “Não pode ser”, “Não pode ser verdade”, “Ainda não acredito que isto está acontecendo”. E junto da negação vem à fuga, o não querer pensar, não querer falar a respeito e muitas vezes não contar, não dividir com ninguém esse momento tão íntimo de dor. É uma defesa temporária.

Não se pode deixar de salientar que a maneira pela qual o médico comunica o diagnóstico influencia diretamente na reação e no entendimento sobre a doença e como será a vida a partir desse momento. O que se percebe, porém, é uma falta de preparo por parte dos médicos, sendo inclusive, negado ao paciente o direito a escolha das possibilidades terapêuticas. A comunicação é um dos principais instrumentos do cuidado em saúde, principalmente quando é voltada a pacientes que enfrentam um diagnóstico amedrontador como o câncer. O médico deveria ser empático, e ter uma comunicação segura e esclarecedora, neste momento de tanta vulnerabilidade.

Outro ponto relevante é em relação ao tempo de espera necessário para a análise dos resultados dos exames, o qual se transforma em uma espera cheia de ansiedade, angústia e desamparo, podendo ser preenchido com pensamentos de morte e pânico.

A mulher detectada com câncer de mama enfrenta um período muito difícil. Primeiro, é preciso aprender a lidar com o estigma que a palavra câncer possui na sociedade, sendo referido como “aquela doença” ou “aquilo”, e com o estigma de que o câncer mata. A falta de informação aumenta o medo. Há desde pessoas com medo de saber se são portadoras da enfermidade, de se cuidar, pessoas com medo da informação, e ainda amigos e familiares que abandonam por não saber como lidar. Muitas vezes a mulher passa a ser vista como a “coitadinha”. Mas o que menos se precisa neste momento é ser olhada com dó. O que se espera é apoio e companheirismo, para que a mulher não se sinta sozinha neste processo tão difícil que irá lhe acompanhar por um período da sua vida. O apoio é fundamental para buscar certa estabilidade na luta contra a doença.

O apoio, o entendimento da doença e o acolhimento, levam a aceitação. E esta traz um certo alívio, pois é a partir dela que se pode iniciar de fato, o tratamento e o enfrentamento. Destaca-se, também, a espiritualidade como estratégia de enfrentamento para o adoecimento, o que proporciona tranquilidade, segurança e força.

A segunda etapa então, refere-se à realização do tratamento, por vezes, longo e agressivo, a partir do qual a mulher sofre com a retirada parcial ou total da mama. Muitas mulheres aceitam a perda da mama. Mas esta aceitação decorre do fato de ser inevitável, como o único caminho para a cura tão esperada, ou seja, se livrar do mal. Para outras, no entanto, a frustração após a cirurgia é traumática. A mama está ligada à feminilidade e representa a essência e a identidade feminina. Mudando sua imagem corporal. Não se sente mais bonita, apresentando sentimentos de vergonha e tendo sua autoestima, por vezes rebaixada. O não olhar para esta parte do corpo, não tocar, esconder, são comportamentos que se fazem presentes na vida de muitas mulheres, influenciando inclusive, no relacionamento com o outro, em especial com o companheiro, pelo temor da rejeição, ou pela rejeição propriamente dita.

Quando detectado precocemente por meio do autoexame, realizado pela palpação das glândulas mamárias ou pela mamografia, o câncer de mama pode ter seus efeitos amenizados, pois quanto antes iniciado o tratamento correto, maior a chance de se obterem os resultados esperados e, menor a mutilação.

Mas será que existe vida após o câncer de mama e todas as emoções que envolvem o diagnóstico e tratamento?

Com certeza! A única resposta que tenho para essa pergunta.

O impacto é uma vivência demasiadamente significativa. No enfrentamento, a mulher tenta se conhecer e se reconhecer nessa nova condição e imagem. Começa, então, a buscar razões para prosseguir nessa nova vida, como uma nova mulher. A experiência de vivenciar o câncer, pode constituir-se no ponto de mutação. Quase todas as pessoas constroem suas vidas de maneira muito racional, correm demais, sem tempo para nada, se preocupando muito mais com o material e com a vida que não pode parar. Evitam olhar para trás e refletir sobre suas condutas. Não param para apreciar tudo aquilo de bom e bonito que a vida oferece. No entanto, ao se depararem com uma doença grave, de estigma incurável como o câncer, elas são induzidas a buscar o autoconhecimento, a avaliar sua postura ante as situações da vida, a resgatar alguns valores e princípios muitas vezes esquecidos.

A partir desse momento, a vida parece ter mais sentido. A vida passa a ser vista de forma diferente. Aprende-se a valorizar muito mais as pessoas e os momentos que antes pareciam passar despercebidos. Portanto, há um resgate na forma de viver.

Um conselho para a mulher que acabou de ser diagnosticada? Ela vai se desesperar, chorar muito, ter um medo imenso de morrer. Porém, vai acontecer um momento em que ela vai olhar e dizer: “Eu vou enfrentar”, por mim, por aqueles que amo e pelos meus sonhos. E ela vai perceber que existe muita vida para se viver ainda. Independentemente de qualquer coisa.

Quem sabe o dia de amanhã? Ninguém! Nem eu, nem você, nem quem um dia teve em mãos esse diagnóstico. Todos nós temos somente a certeza do dia de hoje para ser vivido, então, se estamos vivos vamos simplesmente viver.



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